Um dia triste de revolta
Há uma revolta dentro de mim. Há revolta por aqueles que fecham os olhos a um perigo ideológico com a justificação de "parecer cada vez mais a única alternativa possível". Há revolta por todos os partidos que, ao longo dos anos, deixaram isto acontecer (sim, nenhuma destas é mutuamente exclusiva, sabiam? Não se anulam uma à outra, e a meu ver há culpa em ambas). Que não souberam, e continuam a não saber endereçar os principais problemas que o país está a enfrentar e tem vindo a enfrentar há anos. Que apenas souberam dar razões a quem já antes pensava: mas afinal ninguém faz nada? Não estão errados. Votar em Portugal sempre foi um pouco "votar no mal menor", mas essa sensação tem-se intensificado ao longo dos anos.
Há revolta pelo sistema de votos — por saber que, estando eu no meio do nada, o meu voto que, pessoalmente, vai para um partido pequeno, é sempre completa e absolutamente desperdiçado. É um voto ao lixo. Há revolta por saber que não sou a única pessoa nesta situação, que estou fortemente acompanhada e que isto retira oportunidade aos "pequenos" de crescer significativamente — bom, pelo menos, aos que não se apoiam em discursos populistas. Esses não precisam que o sistema mude para crescer.
Há revolta por Portugal ser continuamente um país preocupado apenas com Lisboa e Porto. Ninguém quer saber dos restantes, e isso nota-se desde logo, uma vez mais, no próprio sistema de votos. É de uma sensação de impotência enorme estar do lado de cá, dos "pequeninos", sentir que não há absolutamente nada de significativo que possamos fazer por um país que também é nosso. Sentir que as nossas vozes são caladas, que somos silenciados, que a nossa maior arma democrática é, afinal, também ela completamente impotente. Bom, pelo menos, se não votarmos num dos "grandes". Passamos a um tripartidarismo perigoso onde eu, aqui no meio do nada, nada posso fazer quanto a isso — nem mesmo com a coisa mais importante que posso fazer.
Há revolta por um país onde tudo se perde, nada se transforma. Ano após ano, vivemos os mesmos problemas; ano após ano, o panorama político piora; ano após ano, estamos cada vez mais próximos de um governo perigoso. Ano após ano, temos um conjunto de pessoas incompetentes que pouco mudam no nosso país.
Hoje é um dia triste, para mim. Não, não vou dizer "para a democracia" (embora seja, porque temos um partido antidemocrático a avançar no parlamento), porque foi a democracia que decidiu isto. Mas é um dia triste. E muitos mais dias tristes se seguirão. E o que custa mais no meio de tudo isto é a completa sensação de nada poder fazer.
