Para o Halloween, aproveitei para ler um clássico que estava a faltar na minha lista. E não é que acabei a gostar muito mais deste livro do que estava à espera?
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O livro apresenta-nos inicialmente ao Conde Drácula, mas não é sobre ele; começa com o primeiro contacto de Jonathan Harker com este, e debruça-se sobre todo um processo de o perseguir para o matar, não sem antes vermos algumas pessoas serem transformadas em vampiras.
O livro não tem um protagonista único e ocorre em volta de várias pessoas: Mina e Jonathan Harker, Dr. John Seward, Dr. Van Helsing, Arthur Godalming, Lucy e Quincey Morris. A história é-nos contada através de cartas, diários, telegramas e notícias, embora nos mostre apenas diários escritos por Mina, Jonathan e Dr. Seward.
Pensei que este livro fosse ser uma leitura pesada e cansativa, mas a verdade é que me agarrou, mesmo nas partes mais paradas em que tudo indicaria o contrário. Talvez a forma de contar a história tenha contribuído para isso. (Aparte: Lembrei-me logo do livro Where'd You Go, Bernadette, que conta a história através de emails, notas e documentos soltos, mas do qual não gostei nada.) No entanto, acho que também ajudou a escrita descritiva, sobretudo nos momentos mais "assustadores" — sem dar muitos spoilers, o momento em que Jonathan sai por uma janela, ou em que uma das personagens é transformada, ou em que um certo paciente é violentamente atacado são das melhores coisas neste livro. São momentos quase arrepiantes e isso surpreende-me muito num livro dos finais de 1800.
Outra coisa que me surpreendeu muito foi a forma como a mulher é retratada na história. Estamos, claro, a falar de um livro de 1897, pelo que certas coisas menos boas são de esperar. Ainda assim, pelo que tenho visto é um assunto que divide muitas nações e acho que depende muito da interpretação que cada pessoa faz do livro.
Na minha interpretação pessoal, Bram Stoker desafia em certos momentos os papéis de género e o ideal de mulher na altura: uma das personagens femininas é cobiçada por vários homens ao mesmo tempo e isto é tratado com uma naturalidade tal que nem hoje se vê semelhante em comentários do Facebook. Não o digo apenas em questões de preconceito ou julgamentos, mas até nas relações entre as personagens — não há qualquer desprezo por esta questão por parte de ninguém em relação a ninguém. Relembro que estamos a falar de um livro de 1897, por isso isto surpreendeu-me bastante.
Não consigo deixar de achar que este livro foi escrito, em certos momentos, com alguma sátira para desafiar certas concepções da altura: temos homens em vários momentos a chorar e a mostrar emoção (se hoje ainda é um bocadinho tabu, imagine-se na altura), por "tudo e por nada", a mostrarem-se vulneráveis — aliás, creio que até há um momento do livro em que é a mulher "a aguentar-se" e a confortar o homem, claramente a sofrer. Além disso, quando uma das personagens femininas é descartada do plano de "caça ao vampiro" por ser mulher, o que é que acontece? Tudo dá errado, eventualmente ela volta a estar envolvida e, para além disso, passa a ter um papel incrivelmente crucial para avançar na história, sendo no final tratada como igual — e o fim, literal fim, do livro celebra a sua bravura e coragem.
Existem, claro, aspectos que se possam apontar contra esta ideia que tenho do livro, como o retrato de mulheres como puras ou impuras, por exemplo. Não deixa de ser escrito por um homem nos finais de 1800. Mas creio que também existem vários argumentos positivos; daí achar que este livro é fortemente divisivo nesta questão e que deixa abertas interpretações neste assunto.
Gostei muito de como este livro é no fundo sobre amizades profundas, entre homens, entre mulheres, e entre ambos — sem qualquer pudor de serem genuínos e vulneráveis uns com os outros, dando lugar a uma sinceridade tão refrescante, mesmo nos dias de hoje. Acho que é um livro que em certos aspectos é incrivelmente moderno e vale a pena a leitura. No entanto, recomendo lerem a versão traduzida; li o inglês e por vezes foi complicado, sobretudo por ter pequenas partes que reflectem um inglês cheio de calão (tive de recorrer à app do tradutor para esta, com a câmara...).
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Ah! E eu vou celebrar, sim, finalmente ter uma obra que NÃO sexualiza esta questão toda dos vampiros e onde não existe qualquer relação romântica com o Dracula, ao contrário dos filmes (estou tão farta desse elemento, desculpem).