Livros | Quociente de Felicidade, Angie Kim

Neste livro, um homem desaparece num parque e a única pessoa que estava com ele e sabe o que aconteceu é Eugene, o seu filho adolescente de 14 anos não falante com síndrome de Angelman. Quem nos narra a história é Mia, também filha de Adam, que nos conta toda a experiência da família — a quem se junta o seu irmão gémeo John e a mãe — em busca do pai.
Embora possa parecer, esta não é a típica história sobre uma pessoa desaparecida. Na verdade, o enredo evolui de forma natural para aquilo que é uma verdadeira prisão interna na qual Eugene vive. O livro gira em volta da condição de Eugene e da falta de comunicação da sua parte, que é erradamente entendida por todos como uma disfunção cognitiva. Por este motivo, Eugene passou a sua vida inteira a ser tratado como alguém que não tem capacidade de pensar, sem inteligência, com o desenvolvimento equiparável ao de uma criança.
Este livro tem uma representatividade incrível, não só neste aspeto, mas também pelo facto de nos falar de uma família coreana que se mudou para os Estados Unidos. Aliás, a autora equipara muitas vezes a dificuldade de um imigrante que mal consegue ainda falar a língua do novo país à falta de meios para comunicar do Eugene.
Adorei a escrita — ainda que por vezes contenha asneiras —, que me deu a completa sensação de ter uma amiga a contar-me a história, de tão envolvida que me fez sentir. Ainda assim, a autora faz muito uso de notas de rodapé que, embora possam acrescentar algo ao raciocínio da personagem principal, por vezes também quebram demasiado o nosso próprio raciocínio e a leitura em si.
Achei Quociente de Felicidade um livro extremamente completo e incrivelmente interessante, onde podemos encontrar reflexões muito ligadas à filosofia, psicologia, linguística, e até música e programação musical (uma área que desconhecia por completo).
Um pequeno apontamento que posso fazer é que acho que o final podia ter sido mais curto e o livro podia ter acabado mais cedo, sem que o enredo sofresse muito com isso. Mas acho que é um detalhe quase irrelevante na totalidade deste que é um dos melhores livros que li este ano, facilmente, se não o melhor. E por isso, é uma forte — muito forte — recomendação.




