Livros | Nem Todas as Baleias Voam, Afonso Cruz
Acho que é oficial: após três livros lidos (e um deles que até gostei mas nem adorei), tenho de dizer que Afonso Cruz é, talvez, um dos meus escritores favoritos neste momento. E quero ler tudo dele, quero absorver todas as palavras deste autor, todas as histórias, todas as personagens.

Esta história ocorre durante a Guerra Fria e introduz-nos a um plano da CIA chamado Jazz Ambassadors, algo que no fundo pretende empregar a música jazz para captar o apoio de jovens do Leste e, basicamente, convencer as pessoas de que os EUA não são um país assim tão mau. É assim que conhecemos Erik Gould, um pianista de excelência, com sinestesia — vê sons e traduz palavras e retratos em música. A CIA está interessada em recrutar Erik para este programa e planeia fazê-lo através daquilo que ele mais ama, mais ainda que a música: Natasha Zimina, a sua mulher.
Acontece que Natasha desaparece de um dia para o outro, deixando Erik Gould e Tristan (o filho de ambos, também com sinestesia, que vê sentimentos e estados de espírito) num sofrimento marcado por uma sensação de abandono. Erik Gould não consegue lidar com a tristeza provocada pelo vazio da mulher e acaba por deixar Tristan com uns amigos — Isaac Dressner e Tsilia — por uns tempos. Para além disto, há partes do livro — com fundo cinzento — intituladas «Relatório Gould», onde vamos descobrindo os progressos da CIA em captar Erik Gould para a sua causa.
Sim, parece muita coisa e tem ainda mais personagens e mais nuances, mas gosto muito de como Afonso Cruz liga tão bem estas personagens, como as diferentes narrativas se cruzam.
Este livro surpreendeu-me muito, talvez por conhecer admitidamente ainda pouco do autor, não esperava que tivesse certos momentos tão pesados. Há momentos do livro que descrevem acontecimentos horríveis dos tempos dos bombardeamentos de Dresden e do Holocausto; há outros momentos marcados por tortura. Ainda assim, só me fez gostar dele ainda mais como escritor.
Para mim, este é um livro, no fundo, sobre tristeza, talvez até depressão — personificada numa das pessoas que Tristan vê —, mas também sobre ultrapassá-la, encontrarmo-nos de novo, encontrarmos um sentido na vida e reconectarmo-nos. É um livro bonito, mas triste, repleto de acontecimentos dolorosos que marcaram as vidas das várias personagens, o que o torna talvez também incrivelmente humano.
Adoro a escrita de Afonso Cruz, o seu lado poético, o modo como explica tantas coisas complexas de formas tão simples, mas acima de tudo a forma como torna tudo tão bonito. Às vezes até aquilo que não deveria ser bonito — mas que o é, talvez de uma forma mais melancólica ou triste, mas bonita. Além disso, este livro também discorre muitas vezes sobre música e, mais especificamente, sobre jazz e blues — o que me transportou de volta à minha curta fase na adolescência em que me sentia fascinada com este último género musical.
Gostei muito deste livro e estou muito curiosa por ler mais deste autor. Acho que o próximo será o Flores, embora queira muito reler O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, que li já em 2020, mas que me lembro de ter adorado. Outros que estão na minha mira são o Para Onde Vão os Guarda-Chuvas e Jesus Cristo Bebia Cerveja.

E como nem podia deixar de ser, são vários os excertos que me ficaram deste livro:
Que outros livros recomendam deste escritor?








