Livros | Fahrenheit 451, Ray Bradbury
Em Fahrenheit 451, acompanhamos Guy Montag, um bombeiro - não dos que apaga fogos, mas do que os causa, queimando livros e as casas em que estão escondidos. Montag vive com a sua esposa Mildred, que passa o dia agarrada à televisão, e não questiona nada do mundo em que vive - até que conhece a sua vizinha Clarisse. Depois disso, Montag percebe que talvez haja mais nos livros que queima.

«Ontem à noite pensei em todo o querosene que usei nos últimos dez anos. E pensei em livros. E apercebi-me de que por detrás de cada um desses livros está um homem. Um homem que teve de pensar neles. Um homem que teve de fixá-los em papel durante muito tempo. E nunca antes me tinha ocorrido isso. Um homem levou uma vida inteira a anotar os seus pensamentos, a observar o mundo e a vida, e depois chego eu e em dois minutos, zás!, tudo acabado.»
Vocês sabem que adoro distopias políticas, e este era um clássico que estava a faltar nas minhas leituras. Mas tenho de ser sincera - não detestei, mas não adorei. Inclusive, este é um daqueles livros que me fez sentir que talvez eu não tenha a perspicácia suficiente para entender.
Para começar, sinto que muitos elementos deste mundo podiam ter sido melhor explicados. Não sei se é o meu lado "geração TikTok" a falar, que precisa de ter a papinha toda feita. Se calhar é. Mas sinto genuinamente que o livro teria uma vibe bem mais distópica se essas explicações existissem. Por exemplo (spoiler alert), o que raio é "a Família" de que Mildred tanto fala, que mundo é que tornou possível um ser humano sentir-se tão próximo de meras personagens de uma novela - e porque é que num momento a conhecemos como alguém que teve uma overdose para, em toda a extensão do livro, não haver um único momento em que reconheçamos alguma emoção nela, alguma angústia que a pudesse ter levado a fazer isso? E onde está o governo deste livro? Onde está a "tirania" além da parte de queimar livros (e os seus leitores)? De que guerra falam?
Este livro deixou-me só muito confusa, tanto pelas questões acima, como por personagens como Beatty, por exemplo - o capitão dos bombeiros, o "manda-chuva" do departamento que queima livros e que... passa a vida a citar passagens de livros, como bom conhecedor de literatura. Tive de ir pesquisar análises desta personagem, e tudo bem, fiquei mais esclarecida - não que existam conclusões certas, mas algumas ideias tranquilizam-me. Mas é a tal coisa, acho que não tenho perspicácia suficiente para compreender este livro.
«-- Os clássicos eram agora programas de rádio de quinze minutos, e cortados de novo para caberem num segmento sobre livros com dois minutos, acabando, finalmente, por se resumirem a dez ou doze linhas numa entrada de dicionário. Estou a exagerar, é claro. Os dicionários serviam para referência. Mas havia muita gente para quem o único conhecimento que tinham do Hamlet (deve conhecer certamente o título, Montag, ainda que para si, Sra. Montar, não deva passar de um rumor), para quem, dizia, o único conhecimento do Hamlet se limitava a um resumo de uma página num livro que se fizera anunciar com a frase: "Agora pode finalmente ler todos os clássicos e manter-se a par dos seus vizinhos". Está a ver? Do berçário à universidade e de volta ao berçário: eis o padrão intelectual dos últimos cinco séculos ou mais.»
Gostava de vos deixar uma review mais esclarecedora, mas já deu para perceber que toda eu me tornei num grande ponto de interrogação com esta leitura. Assim, só posso dizer isto: pá, é giro, leiam. Não tem nada de mal. É uma boa história. Eu só gostava de ter percebido mais, mas é uma boa história. Tem várias reflexões importantes, inclusive relevantes ainda hoje.
«-- Havia uma ave idiota chamada Fénix, muito tempo antes de Cristo, que de séculos a séculos construía uma pira funerária e se imolava nela. Deve ter sido o primeiro antepassado do Homem. Mas, de cada vez que ardia nas chamas, reerguia-se das cinzas e voltava a nascer. E parece que estamos a fazer a mesma coisa, uma e outra vez, só que nós temos algo que a Fénix nunca teve: sabemos a estupidez que acabámos de fazer. Sabemos todas as estupidezes que temos feito nestes milénios, e enquanto o soubermos e formos tendo à mão coisas que no-lo lembrem, pode ser que um dia deixemos de construir estas malditas piras funerárias e de nos imolarmos nelas. A cada geração que passa vamos acrescentando mais uns poucos que se lembram.»

