Livros | Apesar do Sangue, Rita da Nova
Não sabemos quantos livros Rita da Nova irá escrever ao longo da sua vida, mas digo aqui já: este deverá permanecer sempre como um dos seus melhores.

«Glória está a envelhecer. Na tomada de consciência de que o fim pode estar para breve, é no neto que recaem todas as suas preocupações: se ela desaparecer, quem vai cuidar dele? Quem vai tomar conta de Pedro, o rapaz que todos escolheram abandonar?
(...)
Com uma narrativa delicada e carregada de sensibilidade, a autora transporta-nos num enredo não linear em que todas as personagens principais têm direito a fazer-se ouvir: Glória, a avó que aguenta todas as tempestades da família. Helena, a mãe que abandona o filho. Eduardo, o padrasto que já não o é, mas que nunca esqueceu a criança de quem cuidou um dia.
E Pedro, claro, Pedro, o elo que os une: o rapaz que todos rejeitaram, que ninguém soube amar sem prazo e que, em breve, pode precisar desesperadamente de uma nova oportunidade. Wook»
Não sei se tenho propriamente aspetos negativos a apontar sobre este livro. Poderia dizer que a escrita é um pouco densa, que não é um livro pautado por ação, porque se foca sobretudo em reflexões e memórias das personagens — tendo até pouquíssimo diálogo. Tudo coisas que não correspondem exatamente às minhas preferências literárias mas, sendo preferências meramente pessoais, não posso dizer que qualquer uma delas seja negativa ou torne o livro mau.
Talvez por estas razões, demorou um pouco a agarrar-me, mas assim que os acontecimentos começaram a desenvolver-se, quis muito saber como a história destas personagens iria acabar.
«Só quando sabemos que temos para onde voltar é que nos podemos dar ao luxo de voar com as tempestades que nos invadem o espírito — e ele queria personificar o poiso onde ela poderia descansar a agitação, nem que por breves momentos.»
Nota-se um crescimento enorme da Rita, enquanto escritora, neste livro — e a própria escrita em si parece ser muito mais madura. E eu adorei este salto, adorei este seu estilo de escrita e estou verdadeiramente entusiasmada pelo que ela nos trará no futuro.
Sobre o livro em si: adorei (quase) todas as personagens, mas o destaque irá sempre para Glória e desconfio que aquilo que senti, muitos sentirão ao ler esta história — talvez as suas avós não sejam uma Glória, mas haverá sempre um pouco de Glória em todas as avós. Neste aspeto, só posso agradecer à Rita por me permitir um breve reencontro com a minha, que não está entre nós há alguns anos.
«Não podia deixar de pensar na injustiça que era os homens poderem demitir-se da paternidade a qualquer altura — inclusive depois de os filhos terem já nascido —, mas essa possibilidade ser negada às mães. Espera-se que uma mulher abdique de tudo, que arque com a responsabilidade completa às costas, que engula o orgulho e o arrependimento, mesmo que custe a passar na garganta.»
Ao contrário de muita gente — pelo que tenho visto —, não consegui concordar com Helena ou gostar da personagem. Não é que não compreenda que nem todas as mulheres são talhadas para a maternidade, mas achei-a uma personagem muito fria e, de certo modo, cruel. Antes de ela abandonar o filho, já me parecia alguém com quem nunca iria identificar-me. A sua má relação com Glória nunca me pareceu ter grande fundamento, a não ser com base na própria personalidade de Helena. Não me pareceu uma mulher empática — talvez por isso não tenha conseguido sentir, também, qualquer empatia por ela.
Em todo o caso, sem ela esta história não existia. E se esta história não existisse, não poderíamos ter lido aquele que é, até à data, o melhor livro de Rita da Nova. Recomendo muito Apesar do Sangue, que é, no fundo, um livro sobre a complexidade dos laços familiares; e sobre como podemos ter família naqueles que escolhemos — mesmo que não seja a família de sangue. Se gostarem de livros introspetivos, centrados nas personagens, este é um que devem certamente ler.
«A idade é uma coisa tramada: dá-nos conhecimento, sabedoria e experiência de vida, mas tira-nos o tempo para aplicarmos todas as aprendizagens que fomos colecionando.»

Podes ler a minha opinião sobre os livros anteriores aqui: As Coisas que Faltam, Quando os Rios se Cruzam.
