Livros | A História Secreta, Donna Tartt

Por onde começar... Decidi, em Abril, pegar finalmente no calhamaço da estante, estilo elefante na sala. Aproveitar que andava a ler tanto para me iniciar nestas 699 páginas. Dois meses e meio depois, consegui terminar, e o meu hábito de leitura foi com os porcos (tirando a pausa que fiz para o Apesar do Sangue. Obrigada, Rita).
Vou só copiar a sinopse da Wook, porque acho que não conseguiria resumir melhor:
«Um grupo de estudantes inteligentes, excêntricos e rebeldes de uma escola em Nova Inglaterra frequentada por alunos oriundos da nata da sociedade norte-americana, sob a influência de um carismático professor de Estudos Clássicos, descobre um novo modo de pensar e viver, totalmente diferente do resto dos colegas.
Só que, quando os limites da normalidade moral são ultrapassados, as suas vidas alteram-se totalmente e para eles torna-se tão fácil viver como matar…»
Bom, primeiro que tudo, devo dizer que ainda está para aparecer o livro longo que justifique a sua extensão. Ainda não foi desta. Donna, esta história é muito boa, mas tu podias ter escrito bastante menos e acho que teria ficado melhor. Eu sei, já percebi que isto é mesmo a tua cena, mas assim acho que não nos voltamos a encontrar.
Antes de mais, vou começar pelo que não tem nada a ver com o livro ou a autora em si, mas que preciso de dizer. Detestei esta edição. Estava repleta de erros ortográficos (alguns bastante graves) que me tiraram imediatamente da história e que me deram a sensação de não ter sequer sido revista — erros como o típico «á» (em vez de há), «massiço» (ou macisso, francamente já nem me lembro qual deles foi), «ptedorátilo», «desideratado». Comprei este livro em segunda mão, mas não consigo deixar de pensar: é nisto que andamos a gastar o nosso dinheiro? Desculpem, mas fiquei mesmo revoltada, acho que nunca vi um texto tão mau.
«Do que eu não gostava nada era de estar em casa. Acho que sou incapaz de exprimir o desespero que me inspirava o mundo à minha volta. Embora hoje desconfie, dadas as circunstâncias, e a minha predisposição natural, que teria sido infeliz em qualquer parte do mundo, fosse em Biarritz, em Caracas ou na Ilha de Capri, na altura estava plenamente convencido de que a minha infelicidade era inerente àquele sítio.»
Agora, para falar do que realmente importa. Gostei desta história, apesar de sentir que preciso de criar alguma ligação, por mais ínfima, com as personagens, e isso não foi o que aconteceu aqui. Propositadamente, claro está, já que nenhuma delas é minimamente gostável e todas são moralmente dúbias, algumas claramente perturbadas. Ainda assim, parte de mim sente que faltou um pouco de profundidade às personagens e acho que o problema reside também aí.
Uma coisa que eu gostei um pouco menos (embora não saiba se é do livro ou da edição, mas parece-me ser do livro em si) foi o facto de não existir qualquer tradução ou explicação para partes em grego e sobre Grego clássico. Se isso for algo propositado por parte da autora, francamente acho um pouco pretensioso. Mas agora que penso, se calhar também é meio genial: dizer ao leitor «tu não pertences aqui porque não sabes nada disto», a fazer parecer um livro exclusivo para os que o sabem, um pouco como o próprio grupo a que Richard, o nosso narrador e protagonista, se juntou.
Acho que o livro teria sido melhor se tivesse sido mais bem-sucedido a mostrar algum do fascínio que aquele grupo tinha para Richard no início. Sei que ele se fartou de falar sobre isso, mas sinceramente, apenas li, não senti.
Apesar disso, gostei desta leitura e compreendo porque muitos gostam deste livro e desta autora. Penso que fez um trabalho bom q.b. a mostrar a linearidade de: estas pessoas fascinam-me > consegui incluir-me neste grupo > estou a descobrir-lhes os defeitos > percebi que são pessoas horríveis e não quero fazer parte. Mas acho que é uma história que poderia ter sido contada com mais profundidade do que foi.
E portanto, sim, gostei. Mas acho também que não é para mim, que foi desnecessariamente longo e não me convenceu o suficiente para repetir a experiência. Foi uma leitura prazerosa, mas teria sido mais se fosse mais curta; na minha opinião, a extensão do livro não se justifica. Mas acho que o facto de nunca me ter aborrecido é um ponto bastante positivo.

P.S: Admito que talvez este seja um daqueles livros que precisam de uma releitura para serem melhor apreciados. Mas pronto, é coisa que não vai acontecer.
