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fire and earth

Livros, séries, filmes e muito mais ♥

13
Jul25

Livros | Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, Afonso Cruz

Vera

Os Livros Que Devoraram o Meu Pai, Afonso Cruz

Vivaldo Bonfim trabalha em finanças e leva livros, às escondidas, para o seu trabalho. Um dia, desaparece para sempre num desses livros. Quando faz 12 anos, o seu filho, Elias Bonfim, tem finalmente acesso à sua coletânea de livros. O jovem parte então numa aventura por todos os livros do pai na esperança de o encontrar.

 

«Os Livros Que Devoraram o Meu Pai» é um livro de cerca de 120+ páginas, daqueles com letras grandes, pelo que é uma leitura bastante rápida. E também bastante simples, na verdade, o que faz sentido se pensarmos que faz parte do Plano Nacional de Leitura.

 

É fácil perceber porquê: neste livro, viajamos por vários clássicos da literatura. São eles: «A Ilha do Dr. Moreau», «O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde», «Crime e Castigo» e «Fahrenheit 451», sendo que, pessoalmente, só li este último.

 

Para além disso, tem também mensagens que considero bastante importantes: todos erramos e todos temos um lado mais sombrio, mas é sempre possível redimirmo-nos e tornarmo-nos melhores pessoas.

 

Gostei muito desta leitura, no entanto, confesso que fiquei um pouco desapontada (à falta de melhor palavra) com a escrita. Atenção, não é que a escrita seja má, apenas não acho que seja para mim. Faz todo o sentido para um livro que, no fim de contas, acabou a ser recomendado para um público mais juvenil, mas achei a escrita demasiado simples, um pouco inocente e childlike (estou a usar o termo inglês porque infantil não é bem o que quero transmitir). Tinha lido há uns anos «O Pintor Debaixo do Lava-Loiças» e achei a escrita dele tão bonita e poética que esperava algo semelhante neste livro. Não é que isto não continue a ser marcadamente Afonso Cruz, mas prefiro algo mais próximo deste outro livro.

 

Em todo o caso, não é por isso que deixa de ser uma excelente história — que é. E deixou-me muito curiosa por ler todos os clássicos, mas sobretudo «A Ilha do Dr. Moreau», que é um livro sobre o qual nunca sequer tinha pensado antes. Mas pareceu-me muito interessante.

 

Aqui ficam algumas das frases que mais gostei:

 

 

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06
Jul25

Livros | A História Secreta, Donna Tartt

Vera

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Por onde começar... Decidi, em Abril, pegar finalmente no calhamaço da estante, estilo elefante na sala. Aproveitar que andava a ler tanto para me iniciar nestas 699 páginas. Dois meses e meio depois, consegui terminar, e o meu hábito de leitura foi com os porcos (tirando a pausa que fiz para o Apesar do Sangue. Obrigada, Rita).

 

Vou só copiar a sinopse da Wook, porque acho que não conseguiria resumir melhor:

«Um grupo de estudantes inteligentes, excêntricos e rebeldes de uma escola em Nova Inglaterra frequentada por alunos oriundos da nata da sociedade norte-americana, sob a influência de um carismático professor de Estudos Clássicos, descobre um novo modo de pensar e viver, totalmente diferente do resto dos colegas.
Só que, quando os limites da normalidade moral são ultrapassados, as suas vidas alteram-se totalmente e para eles torna-se tão fácil viver como matar…»

 

Bom, primeiro que tudo, devo dizer que ainda está para aparecer o livro longo que justifique a sua extensão. Ainda não foi desta. Donna, esta história é muito boa, mas tu podias ter escrito bastante menos e acho que teria ficado melhor. Eu sei, já percebi que isto é mesmo a tua cena, mas assim acho que não nos voltamos a encontrar.

 

Antes de mais, vou começar pelo que não tem nada a ver com o livro ou a autora em si, mas que preciso de dizer. Detestei esta edição. Estava repleta de erros ortográficos (alguns bastante graves) que me tiraram imediatamente da história e que me deram a sensação de não ter sequer sido revista — erros como o típico «á» (em vez de há), «massiço» (ou macisso, francamente já nem me lembro qual deles foi), «ptedorátilo», «desideratado». Comprei este livro em segunda mão, mas não consigo deixar de pensar: é nisto que andamos a gastar o nosso dinheiro? Desculpem, mas fiquei mesmo revoltada, acho que nunca vi um texto tão mau.

 

«Do que eu não gostava nada era de estar em casa. Acho que sou incapaz de exprimir o desespero que me inspirava o mundo à minha volta. Embora hoje desconfie, dadas as circunstâncias, e a minha predisposição natural, que teria sido infeliz em qualquer parte do mundo, fosse em Biarritz, em Caracas ou na Ilha de Capri, na altura estava plenamente convencido de que a minha infelicidade era inerente àquele sítio.»

 

Agora, para falar do que realmente importa. Gostei desta história, apesar de sentir que preciso de criar alguma ligação, por mais ínfima, com as personagens, e isso não foi o que aconteceu aqui. Propositadamente, claro está, já que nenhuma delas é minimamente gostável e todas são moralmente dúbias, algumas claramente perturbadas. Ainda assim, parte de mim sente que faltou um pouco de profundidade às personagens e acho que o problema reside também aí.

 

Uma coisa que eu gostei um pouco menos (embora não saiba se é do livro ou da edição, mas parece-me ser do livro em si) foi o facto de não existir qualquer tradução ou explicação para partes em grego e sobre Grego clássico. Se isso for algo propositado por parte da autora, francamente acho um pouco pretensioso. Mas agora que penso, se calhar também é meio genial: dizer ao leitor «tu não pertences aqui porque não sabes nada disto», a fazer parecer um livro exclusivo para os que o sabem, um pouco como o próprio grupo a que Richard, o nosso narrador e protagonista, se juntou.

 

Acho que o livro teria sido melhor se tivesse sido mais bem-sucedido a mostrar algum do fascínio que aquele grupo tinha para Richard no início. Sei que ele se fartou de falar sobre isso, mas sinceramente, apenas li, não senti.

 

Apesar disso, gostei desta leitura e compreendo porque muitos gostam deste livro e desta autora. Penso que fez um trabalho bom q.b. a mostrar a linearidade de: estas pessoas fascinam-me > consegui incluir-me neste grupo > estou a descobrir-lhes os defeitos > percebi que são pessoas horríveis e não quero fazer parte. Mas acho que é uma história que poderia ter sido contada com mais profundidade do que foi.

 

E portanto, sim, gostei. Mas acho também que não é para mim, que foi desnecessariamente longo e não me convenceu o suficiente para repetir a experiência. Foi uma leitura prazerosa, mas teria sido mais se fosse mais curta; na minha opinião, a extensão do livro não se justifica. Mas acho que o facto de nunca me ter aborrecido é um ponto bastante positivo.

 

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P.S: Admito que talvez este seja um daqueles livros que precisam de uma releitura para serem melhor apreciados. Mas pronto, é coisa que não vai acontecer.

24
Jun25

Livros | Feira do Livro de Lisboa 2025

Vera

Este ano não houve muito tempo para passeio, fomos diretos ao que queríamos, mas mesmo assim, fomos dois dias.

 

Pela primeira vez na vida, conseguimos apanhar uma Hora H. Enquanto o meu namorado ainda conseguiu comprar alguns livros, eu voltei de lá de mãos a abanar e fiquei bastante desiludida com a experiência. A verdade é que não consegui encontrar um único livro exposto, da lista que tinha. Aliás, minto: encontrei um único, que não estava incluído na promoção. Claro que não ajuda ter o tempo contado e sentir essa pressão. Não perguntei pelos livros porque (erro número 1) tinha uma lista de poucos mais de 10 em que eu não tinha livros selecionados, apenas pensei "destes, vou ver os que há/estão na Hora H/o que encontro".

 

Infelizmente, não tivemos tempo de ver antes onde eles poderiam estar (erro número 2). Por isso, a Hora H para mim foi uma perda de tempo, mas estou disposta a dar uma segunda oportunidade com tempo de procurar pelo sítio dos livros antes (e uma lista mais pequena e certa). No entanto, com o emprego do meu namorado, é muito difícil conseguirmos apanhar estas coisas (já que estamos bastante longe de Lisboa e não basta sair de casa e ir), e nem sei se alguma vez vai acontecer mais.

 

Conseguimos, no entanto, voltar para aproveitar alguns livros do dia e é isso que vos venho mostrar. São muito poucos (até porque vejo cada vez menos appeal em comprar um monte de livros só porque sim; digamos que ainda tenho muitos dos que comprei em anos anteriores por ler...), mas acho curioso que todos sejam não-ficção. Também gosto muito de olhar e ver só autoras.

 

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Comprei, então: Coisas de Loucos da Catarina Gomes, Ainda Bem que a Minha Mãe Morreu da Jennette McCurdy, e Mulheres Más da María Hesse.

 

Vi há pouco tempo a série documental Quiet on Set, pelo que vai ser uma experiência interessante acrescentar o livro da Jennette ao repertório deste conhecimento que passo a ter, mas não queria. Apanhei o último exemplar disponível; o livro até está amassado e com um pequeno rasgo — ainda ponderei não o comprar por causa disto, mas a preço mais barato e com o texto (a parte que importa) perfeitamente imaculado e legível, acabei por achar que seria absurdo deixá-lo lá.

 

Também estou muito feliz por finalmente ter a oportunidade de ler um livro da María Hesse, e gostei de ver que já existem lançamentos novos além dos que conhecia. Acho que este vai ser um prazer imenso de folhear, basta considerar a beleza da arte.

 

Para além destes, queria muito comprar o A Amiga Genial de Elena Ferrante para poder começar a tetralogia — ainda por cima o preço original é francamente proibitivo —, mas infelizmente já estava esgotadíssimo.

 

Este ano, apesar de a Rita da Nova ter feito sessões de autógrafos, acabou por não ser possível manter essa espécie de tradição — mas a verdade é que já não sinto a mesma força de vontade, porque já estive com ela duas vezes e vi-a três. Não quer dizer que não fosse caso tivesse oportunidade, mas já não faço toda a questão do mundo caso não seja possível.

 

Como foi a vossa Feira do Livro?

 

2022 | 2023 | 2024

27
Mai25

Livros | Apesar do Sangue, Rita da Nova

Vera

Não sabemos quantos livros Rita da Nova irá escrever ao longo da sua vida, mas digo aqui já: este deverá permanecer sempre como um dos seus melhores.

 

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«Glória está a envelhecer. Na tomada de consciência de que o fim pode estar para breve, é no neto que recaem todas as suas preocupações: se ela desaparecer, quem vai cuidar dele? Quem vai tomar conta de Pedro, o rapaz que todos escolheram abandonar?

(...)

Com uma narrativa delicada e carregada de sensibilidade, a autora transporta-nos num enredo não linear em que todas as personagens principais têm direito a fazer-se ouvir: Glória, a avó que aguenta todas as tempestades da família. Helena, a mãe que abandona o filho. Eduardo, o padrasto que já não o é, mas que nunca esqueceu a criança de quem cuidou um dia.


E Pedro, claro, Pedro, o elo que os une: o rapaz que todos rejeitaram, que ninguém soube amar sem prazo e que, em breve, pode precisar desesperadamente de uma nova oportunidade. Wook»

 

Não sei se tenho propriamente aspetos negativos a apontar sobre este livro. Poderia dizer que a escrita é um pouco densa, que não é um livro pautado por ação, porque se foca sobretudo em reflexões e memórias das personagens — tendo até pouquíssimo diálogo. Tudo coisas que não correspondem exatamente às minhas preferências literárias mas, sendo preferências meramente pessoais, não posso dizer que qualquer uma delas seja negativa ou torne o livro mau.

 

Talvez por estas razões, demorou um pouco a agarrar-me, mas assim que os acontecimentos começaram a desenvolver-se, quis muito saber como a história destas personagens iria acabar.

 

«Só quando sabemos que temos para onde voltar é que nos podemos dar ao luxo de voar com as tempestades que nos invadem o espírito — e ele queria personificar o poiso onde ela poderia descansar a agitação, nem que por breves momentos.»

 

Nota-se um crescimento enorme da Rita, enquanto escritora, neste livro — e a própria escrita em si parece ser muito mais madura. E eu adorei este salto, adorei este seu estilo de escrita e estou verdadeiramente entusiasmada pelo que ela nos trará no futuro.

 

Sobre o livro em si: adorei (quase) todas as personagens, mas o destaque irá sempre para Glória e desconfio que aquilo que senti, muitos sentirão ao ler esta história — talvez as suas avós não sejam uma Glória, mas haverá sempre um pouco de Glória em todas as avós. Neste aspeto, só posso agradecer à Rita por me permitir um breve reencontro com a minha, que não está entre nós há alguns anos.

 

«Não podia deixar de pensar na injustiça que era os homens poderem demitir-se da paternidade a qualquer altura — inclusive depois de os filhos terem já nascido —, mas essa possibilidade ser negada às mães. Espera-se que uma mulher abdique de tudo, que arque com a responsabilidade completa às costas, que engula o orgulho e o arrependimento, mesmo que custe a passar na garganta.»

 

Ao contrário de muita gente — pelo que tenho visto —, não consegui concordar com Helena ou gostar da personagem. Não é que não compreenda que nem todas as mulheres são talhadas para a maternidade, mas achei-a uma personagem muito fria e, de certo modo, cruel. Antes de ela abandonar o filho, já me parecia alguém com quem nunca iria identificar-me. A sua má relação com Glória nunca me pareceu ter grande fundamento, a não ser com base na própria personalidade de Helena. Não me pareceu uma mulher empática — talvez por isso não tenha conseguido sentir, também, qualquer empatia por ela.

 

Em todo o caso, sem ela esta história não existia. E se esta história não existisse, não poderíamos ter lido aquele que é, até à data, o melhor livro de Rita da Nova. Recomendo muito Apesar do Sangue, que é, no fundo, um livro sobre a complexidade dos laços familiares; e sobre como podemos ter família naqueles que escolhemos — mesmo que não seja a família de sangue. Se gostarem de livros introspetivos, centrados nas personagens, este é um que devem certamente ler.

 

«A idade é uma coisa tramada: dá-nos conhecimento, sabedoria e experiência de vida, mas tira-nos o tempo para aplicarmos todas as aprendizagens que fomos colecionando.»

 

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Podes ler a minha opinião sobre os livros anteriores aqui: As Coisas que Faltam, Quando os Rios se Cruzam.

17
Abr25

Livros | A Cicatriz, Maria Francisca Gama

Vera

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A Cicatriz apresenta-nos um casal de jovens, numa relação evidentemente feliz e apaixonada, a passar férias no Rio de Janeiro. Depois de dias tão bem passados e preenchidos de encanto brasileiro, decidem aproveitar uma das últimas noites para jantar fora. Mas, quando chega a hora de regressar ao hotel, decidem fazer o caminho a pé e não se recordam se devem virar à direita ou à esquerda - é essa decisão, no entanto, que vai mudar para sempre a vida de ambos e de forma profunda.

 

«Lembro-me de que olhava para ele muitas vezes, quando, ao fim de semana, acordava mais cedo, e que pensava que não o merecia, porque ele era Luz e eu sempre vivi nas Trevas, entre aquilo que os outros viam em mim e elogiavam e tudo o que eu escondia e acreditava que, mais cedo ou mais tarde, seria revelado.»

 

Devorei este livro em dois dias, por ser pequeno e porque cerca de metade vai trilhando o caminho para chegarmos ao derradeiro dia e sabermos o que aconteceu, o que aguça logo a curiosidade.

 

Tenho lido algumas críticas sobre a parte inicial se demorar demasiado até chegar ao "dia D", divagando desnecessariamente sobre aspetos irrelevantes. Tendo a concordar, mas também compreendo porque a autora assim o fez e, honestamente, gostei tanto da escrita dela que não me importei de mergulhar um pouco mais em detalhes que não interessavam assim tanto.

 

«Nem sempre fui assim, tão pessimista e refém do destino inalterável e dramático, mas de há uns anos para cá, desde que aquilo me aconteceu, carrego em mim esse peso de que a desgraça escolhe a dedo quem está mais frágil e dá conta do pouco que sobrevivemos desde essa última tragédia.»

 

É um livro gráfico e duro, ainda que o acontecimento seja algo previsível, ou pelos menos os seus contornos de um modo geral.

 

Gostei bastante de todas as descrições do Rio de Janeiro e do facto de a cidade ser praticamente uma personagem do livro em si mesma. Ainda assim, há alguns pontos que me deixaram com opiniões ambíguas ou alguma amargura:

 

1. Porquê o Brasil? Sim, sim, sabemos que a segurança lá está por um fio, mas isto podia ter acontecido em praticamente qualquer parte do mundo. Focar na pobreza, nas favelas... Ok, se calhar alguém pode argumentar que dá a conhecer os dois lados do país, mas eu também acho que talvez esteja a estereotipar.

2. A autora explica que esta é a história que aconteceu na sua cabeça quando viajou para o Rio de Janeiro. Talvez isto responda à minha pergunta anterior. Também sofro de alguma ansiedade e por vezes também tenho pensamentos intrusivos do género. Não sei se me sinto confortável com a ideia de os materializar, prefiro esquecê-los. Dar vida a uma imaginação horrível onde me incluo parece-me mórbido.

3. Não sei o que achar da forma como a protagonista lidou com o seu trauma, mas também não me sinto confortável em criticar - afinal, que raio sei eu? Vou ser eu a dizer a alguém que experienciou um acontecimento traumático que essa pessoa está errada? Não. Mas é como disse: opiniões ambíguas ou alguma amargura.

 

No fim de contas, adorei a escrita dela, gostei de ser embalada na história até chegar ao dia (mesmo que com detalhes que nada interessam) e é sem dúvida um livro profundamente marcante e impactante. Gostei também de nos ter respondido à pergunta "e se?", da forma como nos contou a história alternativa - o que aconteceu no universo paralelo onde seguiram a direção correta. Dou quatro estrelas por isto. Mas também me deixará com outro tipo de reflexões e questionamentos menos positivos.

 

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13
Abr25

Lá, Onde o Vento Chora

O livro e o filme

Vera

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Kya é uma jovem que vive num pantanal na Carolina do Norte, perto de Barkley Cove, isolada da civilização. Em criança, Kya foi sendo abandonada pelos seus familiares, um a um, até se ver completamente sozinha e sem mais ninguém em quem contar para sobreviver. Conhecida como a Miúda do Pantanal, Kya é desprezada pelos habitantes de Barkley Cove e vista como uma estranha selvagem; e, por isso, mais tarde acaba presa por suspeita de ter matado Chase Andrews, o menino querido de Barkley Cove, encontrado morto no pantanal.

 

«Eu nunca odiei ninguém. Eles é que me odiavam a mim. Eles é que se riam de mim, eles é que me abandonaram. Eles é que me importunaram e me atacaram.»

 

Adorei este livro, de coração. Aliás, tenho de começar por dizer, desde já, que Delia Owens conseguiu uma proeza incrível: fez-me adorar um livro marcado por escrita descritiva. Pensava não ser fã deste tipo de escrita, mas estava enganada; ainda há por aí palavras que me conquistem.

 

Poderá ter ajudado - quem quero enganar, claro que ajudou - o facto de ela ser cientista da vida selvagem, já que as descrições que faz do pantanal, da sua natureza e dos animais que a habitam são únicas. O pantanal acaba por ser, por si só, uma personagem do livro, e é fascinante. Tive muita vontade de visitar um sítio assim, e ainda tenho, apesar de me ter lembrado que, com a minha fobia a rãs e sapos, não sairia de lá mentalmente sã.

 

Pela primeira vez na vida, não me senti capaz de ler um livro em inglês. Comecei a ler esta versão, mas tinha tantas palavras que eu simplesmente não conhecia que achei melhor ler a tradução portuguesa, porque não estava a conseguir captar a magia da ambiência que Delia Owens queria passar. Vendo pelo lado positivo, foi aqui que me lembrei que a biblioteca existe e que eu devia voltar a ser visitante regular (e assim aconteceu).

 

Esta é, no fundo, a história de alguém abandonada por todos, que se conseguiu superar sozinha desde miúda, conseguindo até feitos profissionais incríveis, apesar de não ter sequer frequentado a escola. A vida no pantanal ensinou-lhe mais do que qualquer um poderia saber. É também uma personagem muito solitária e, em momentos, inocente, o que faz todo o sentido.

 

«Recordou a forma como o pai definia um homem: alguém que chora quando tem vontade, sente a poesia e a ópera com o coração e faz o que for necessário para defender uma mulher.»

 

Achei um livro muito completo: tem romance, crime e mistério, drama. Acho que é uma história devastadora quando pensamos mais a fundo na vida que Kya teve, mas tem tanto de bonita quanto de triste e este livro ganhou um lugar muito quentinho no meu coração. Gostei mesmo muito e, se ainda não leram, recomendo bastante.

 

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Poster do filme Where the Crawdads Sing

O filme tem algumas escolhas distintas do livro, algumas que sinto que alteram até um pouco a essência e carácter de Kya - aqui, ela é menos tímida, por vezes mais efusiva. Prefiro a Kya do livro, faz-me mais sentido.

 

Ainda assim, foi ótimo poder dar uma "cara" ao pantanal e acho que a força do filme está precisamente na Natureza que mostra. De resto, faz um bom trabalho a adaptar a história, mas nada que o destaque fortemente como obra cinematográfica. Gostei e recomendo. Ah, e adoro a música que a Taylor Swift compôs para o filme - aliás, isto foi o que me levou ao livro, portanto só tenho de lhe agradecer. E agora que conheci a história, acho que a música está ainda melhor.

 

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19
Fev25

Livros | Maybe You Should Talk to Someone, Lori Gottlieb

Vera

Um olhar aprofundado sobre a psicoterapia, enquanto psicóloga e enquanto paciente.

 

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Lori Gottlieb, uma psicóloga americana, vê a sua vida mudar com um acontecimento disruptivo com o qual ela não está a conseguir lidar, fazendo com que procure um psicólogo para a ajudar. Entrelaçando a sua própria história com a história de alguns dos seus pacientes, Lori consegue a proeza de nos dar um livro repleto de histórias e insights enriquecedores.

 

Lori selecionou quatro casos específicos para nos expor: uma idosa com um passado abusivo que não vê a sua vida prolongar-se para lá do seu próximo aniversário; um escritor televisivo com tendências narcisistas; uma rapariga que recorre ao álcool para lidar com situações repetitivas de abandono; e uma jovem recém-casada com uma doença terminal.

 

Este é um daqueles livros que eu considero leitura quase obrigatória para absolutamente toda a gente. Educa, de forma simples, o leitor comum sobre alguns dos aspetos da Psicologia mas, mais importante ainda, não é a isso que se propõe. Sim, Lori vai educar-vos sobre algumas coisas da área, mas este não é um livro técnico sobre Psicologia. É um livro repleto de humanidade.

 

Gostei imenso de acompanhar as histórias destas pessoas - mais do que a própria história da autora, confesso -, mas gostei ainda mais da quantidade absurda de reflexões e insights interessantíssimos que Lori Gottlieb traz para cima da mesa. Ainda mais, quando os faz enquanto psicóloga - consegui perceber, pelo livro, que ela deve ser uma profissional incrível no que faz, com uma awareness impressionante do que a rodeia e das pessoas que acompanha. Mais ainda, todos os momentos em que ela questiona os seus próprios julgamentos para poder dar uma resposta correta e imparcial aos seus pacientes fazem-me valorizar muito o seu trabalho.

 

«We tend to think that the future happens later, but we're creating it in our minds every day. When the present falls apart, so does the future we had associated with it. And having the future taken away is the mother of all plot twists. But if we spend the present trying to fix the past or control the future, we remain stuck in place, in perpetual regret.»

 

Para além disso, como formada em Psicologia, achei bastante interessante ver as diferenças que existem no ensino português e americano (spoiler: o nosso não presta, mas isso já muitos de nós sabíamos). Se alguma vez se perguntaram por que parece ser difícil encontrar psicólogos verdadeiramente bons em Portugal (ênfase no "verdadeiramente"), é porque de facto a preparação profissional neste país fica muito aquém do que devia.

 

Fora este aparte, este livro ainda me fez chorar algumas vezes. Tenho muita curiosidade de perceber como seria a experiência de o ler sem a formação em Psicologia - essa experiência não posso ter -, até porque acho que é um livro bastante acessível à maior parte da população. Será que satisfaz a curiosidade e fascínio de muitos com a área?

 

«(...) therapy is about understanding the self that you are. But part of getting to know yourself is to unknow yourself - to let go of the limiting stories you've told yourself about who you are so that you aren't trapped by them, so you can live your life and not the story you've been telling yourself about your life.»

 

Também a romantiza por vezes, talvez, mas isso são outros quinhentos. Voltando atrás: é um livro incrivelmente humano e acho que é uma experiência que faz valer mesmo muito a pena a leitura. Recomendo bastante. Li no Kobo (temos upgrade do meu Pocketbook não-tátil e rudimentar! 🥹) mas fiquei com vontade de comprar uma cópia física para reler e - eu que defendo um livro imaculado - fazer as minhas anotações.

 

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Quem conhece?

27
Dez24

Livros | Lidos em 2024 & top 3

Vera

Este ano tive uma longa reading slump (aliás, em que ano é que eu não tenho?), da qual consegui recuperar para, mais tarde, voltar a cair numa mais pequena na qual ainda me encontro (mas estou a tentar sair, só que o cansaço já é demasiado, até para ler). Ainda assim, estou satisfeita com o número de livros que li, até porque, pela primeira vez, em 2024 não defini quaisquer objetivos de leituras em termos de quantidade de livros lidos - provavelmente porque percebi também que, todos os anos, nunca os cumpro. E eu até sou generosa comigo mesma - coloco apenas 12, um por cada mês. Mas eu, embora goste muito de ler, não sou essa pessoa. Já aceitei.

 

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Por isso, vou aceitar a vitória de 8 livros lidos este ano. Foi ótimo para o ano que tive, francamente (especialmente esta segunda metade). Que livros li este ano?

 

E destes, qual é o meu top 3? De forma breve e sem qualquer ordem específica, não fica difícil escolher. Vamos lá:

1. The Seven Husbands of Evelyn Hugo - Ok, é verdade que eu disse que não existe uma ordem específica, mas acho que este pertence efetivamente ao primeiro lugar. A Evelyn Hugo é das personagens mais fascinantes que tive o prazer de conhecer e eu adorei este livro. Ainda não cumpri o desejo de ler mais de Taylor Jenkins Reid, mas tentarei que aconteça em 2025.

2. Gente Ansiosa - Talvez este livro figure nesta pequena lista apenas para não vir referir somente dois livros... É capaz que assim seja, mas reparem: eu li 8, qualquer um deles poderia vir encher chouriços aqui e eu escolhi este. É porque é de facto melhor que os outros, não é? (Desculpem. A falar assim, até parece que nem gostei.)

3. Incidents Around the House - Uma surpresa para mim, que nunca tinha lido terror. Apesar do final algo confuso e anticlimático, eu adorei a experiência que esta leitura me deu. E, uma vez mais, espero cumprir o desejo de ler mais (do género e do autor) em 2025.

14
Dez24

Livros | Fahrenheit 451, Ray Bradbury

Vera

Em Fahrenheit 451, acompanhamos Guy Montag, um bombeiro - não dos que apaga fogos, mas do que os causa, queimando livros e as casas em que estão escondidos. Montag vive com a sua esposa Mildred, que passa o dia agarrada à televisão, e não questiona nada do mundo em que vive - até que conhece a sua vizinha Clarisse. Depois disso, Montag percebe que talvez haja mais nos livros que queima.

 

Livro Fahrenheit 451

 

«Ontem à noite pensei em todo o querosene que usei nos últimos dez anos. E pensei em livros. E apercebi-me de que por detrás de cada um desses livros está um homem. Um homem que teve de pensar neles. Um homem que teve de fixá-los em papel durante muito tempo. E nunca antes me tinha ocorrido isso. Um homem levou uma vida inteira a anotar os seus pensamentos, a observar o mundo e a vida, e depois chego eu e em dois minutos, zás!, tudo acabado.»

 

Vocês sabem que adoro distopias políticas, e este era um clássico que estava a faltar nas minhas leituras. Mas tenho de ser sincera - não detestei, mas não adorei. Inclusive, este é um daqueles livros que me fez sentir que talvez eu não tenha a perspicácia suficiente para entender.

 

Para começar, sinto que muitos elementos deste mundo podiam ter sido melhor explicados. Não sei se é o meu lado "geração TikTok" a falar, que precisa de ter a papinha toda feita. Se calhar é. Mas sinto genuinamente que o livro teria uma vibe bem mais distópica se essas explicações existissem. Por exemplo (spoiler alert), o que raio é "a Família" de que Mildred tanto fala, que mundo é que tornou possível um ser humano sentir-se tão próximo de meras personagens de uma novela - e porque é que num momento a conhecemos como alguém que teve uma overdose para, em toda a extensão do livro, não haver um único momento em que reconheçamos alguma emoção nela, alguma angústia que a pudesse ter levado a fazer isso? E onde está o governo deste livro? Onde está a "tirania" além da parte de queimar livros (e os seus leitores)? De que guerra falam?

 

Este livro deixou-me só muito confusa, tanto pelas questões acima, como por personagens como Beatty, por exemplo - o capitão dos bombeiros, o "manda-chuva" do departamento que queima livros e que... passa a vida a citar passagens de livros, como bom conhecedor de literatura. Tive de ir pesquisar análises desta personagem, e tudo bem, fiquei mais esclarecida - não que existam conclusões certas, mas algumas ideias tranquilizam-me. Mas é a tal coisa, acho que não tenho perspicácia suficiente para compreender este livro.

 

«-- Os clássicos eram agora programas de rádio de quinze minutos, e cortados de novo para caberem num segmento sobre livros com dois minutos, acabando, finalmente, por se resumirem a dez ou doze linhas numa entrada de dicionário. Estou a exagerar, é claro. Os dicionários serviam para referência. Mas havia muita gente para quem o único conhecimento que tinham do Hamlet (deve conhecer certamente o título, Montag, ainda que para si, Sra. Montar, não deva passar de um rumor), para quem, dizia, o único conhecimento do Hamlet se limitava a um resumo de uma página num livro que se fizera anunciar com a frase: "Agora pode finalmente ler todos os clássicos e manter-se a par dos seus vizinhos". Está a ver? Do berçário à universidade e de volta ao berçário: eis o padrão intelectual dos últimos cinco séculos ou mais.»

 

Gostava de vos deixar uma review mais esclarecedora, mas já deu para perceber que toda eu me tornei num grande ponto de interrogação com esta leitura. Assim, só posso dizer isto: pá, é giro, leiam. Não tem nada de mal. É uma boa história. Eu só gostava de ter percebido mais, mas é uma boa história. Tem várias reflexões importantes, inclusive relevantes ainda hoje.

 

«-- Havia uma ave idiota chamada Fénix, muito tempo antes de Cristo, que de séculos a séculos construía uma pira funerária e se imolava nela. Deve ter sido o primeiro antepassado do Homem. Mas, de cada vez que ardia nas chamas, reerguia-se das cinzas e voltava a nascer. E parece que estamos a fazer a mesma coisa, uma e outra vez, só que nós temos algo que a Fénix nunca teve: sabemos a estupidez que acabámos de fazer. Sabemos todas as estupidezes que temos feito nestes milénios, e enquanto o soubermos e formos tendo à mão coisas que no-lo lembrem, pode ser que um dia deixemos de construir estas malditas piras funerárias e de nos imolarmos nelas. A cada geração que passa vamos acrescentando mais uns poucos que se lembram.»

 

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29
Out24

Spooky Season #2

Incidents Around the House, The Black Phone

Vera

Uma estreia literária e um filme nunca antes visto.

 

Incidents Around the House, Josh Malerman

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Temos livro de terror? Temos, o primeiro do Halloween e o primeiro da minha vida. Sendo terror um dos meus géneros preferidos no cinema, pergunto-me porque nunca o consumi nas minhas leituras até hoje. Mas que fiquei com vontade de ler mais depois deste livro, fiquei.

 

Incidents Around the House é do mesmo autor que escreveu Birdbox, cuja adaptação para filme cheguei a ver. Conta-nos a história de Bella, uma criança que há muito criou amizade com uma entidade que surgiu do seu guarda-roupa, que chama de Other Mommy (Outra Mãe) e que lhe pergunta constantemente se pode entrar no seu coração. Com uma resposta repetidamente negativa, esta entidade começa a perder a paciência e a agir de forma cada vez mais agressiva... Na realidade, a família de Bella esconde um segredo que acabará por mudar as suas vidas.

 

Devorei este livro em poucos dias e adorei. Conseguiu ser creepy na medida certa e até trazer algumas reflexões ligadas à questão da maternidade, por exemplo (embora este não seja, de todo, o foco do livro). Gostei muito da experiência de ler uma história narrada por uma criança e da forma como Josh Malerman moldou a sua voz. Apesar de nunca nos ser dita a idade de Bella, percebemos que é uma criança com idade suficiente para compreender certas coisas no mundo, mas que, ao mesmo tempo, ainda acarreta a inocência e ingenuidade tipicamente infantis. Gostei de certas ferramentas utilizadas, como por exemplo referir que os pais "costumam usar esta palavra" quando é um termo mais complexo, ou com frases com pouca ou nenhuma vírgula onde há muitos "e", que nos levam claramente ao pensamento menos estruturado de um menor.

 

Gostei da ambiência e do ritmo a que a história se desenrolou. As únicas críticas negativas que tenho são que não consegui ligar-me emocionalmente às personagens (inclusive, algumas delas são difíceis de gostar) e, além disso, não gostei do final. Achei-o um pouco confuso, não tanto no que descreve da história mas no que é suposto representar, e tive de ir procurar explicações. Não fiquei a entender muito mais, sinceramente. Achei um pouco anticlimático devorar um livro que estava a ser tão bem sucedido em agarrar o meu interesse para chegar ao final e ficar "...o quê?".

 

Gostava de ter tido um final mais esclarecedor, e acho que ficou a faltar um pouco mais de informação sobre a Other Mommy também - sem essa informação, o final tentou ligar duas coisas sem que uma delas tivesse tido assim tanta força no enredo. Ainda assim, recomendo muito a leitura e não nego que gostava muito que existisse uma adaptação audiovisual do livro - e certamente que veria.

 

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The Black Phone

The Black Phone

Finney, um jovem rapaz de 13 anos, é raptado por um homem de máscara - e não é a sua primeira vítima. Mantido num local fechado e à prova de som, um telefone preto desconectado começa a tocar incessantemente, e é quando Finney atende que descobre que do outro lado estão todos os adolescentes que o seu raptor capturou e matou.

 

Não tenho muito a dizer deste filme, não sinto que tenha tido algum ponto de destaque. Achei-o bom, mas também não achei nada de especial. Conta uma história linear e fá-lo de forma satisfatória. É um bom filme para entreter; gostei do enredo e dos atores (sobretudo a atriz que interpreta a irmã do jovem, achei-a bastante boa). Não acho que seja particularmente assustador (tirando um pequeno jumpscare que até a mim me apanhou, o que não é hábito), por isso é seguro para os espectadores mais medrosos.

 

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📖 A ler:



📺 A ver:

Taskmaster (UK), Temporada 19
Pluribus, Temporada 1
Alice in Borderland, Temporada 3

🎮 A jogar:

Fields of Mistria
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