Creio que nunca, em momento algum, conseguirei fazer justiça a este jogo, que me tocou de forma tão, tão profunda e é facilmente um dos melhores jogos de todo o sempre. Aviso já que a publicação é longa.
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Tem uma história muito triste e é um jogo surpreendentemente emocional. No entanto, a história é contada de forma muito obscura, visualmente, com texto muito enigmático e com muita simbologia. Há quem chegue ao fim e consiga perceber, de repente, toda a história numa batalha final; e há quem precise de pesquisar um pouco mais. É esse entendimento repentino numa batalha final que torna o jogo tão brilhante. Afinal, não era suposto ser este um derradeiro encontro, um combate há muito esperado? Sim, e pelo meio surpreende-nos com uma chapada de realidade, um momento emocional, que nos abre os olhos e, aos mais sensíveis de nós, poderá até fazer deitar algumas lágrimas. No fundo, faz-nos perceber aquilo que estava a acontecer este tempo todo — e essa realização é das coisas mais tristes que o jogo tem para nos oferecer.
Se calhar, estou a adiantar-me muito, não é? Comecemos, então, pelo princípio. Hollow Knight não é um jogo para qualquer pessoa. Aliás, não achava sequer que fosse para mim; quando o comprei, estava convicta de que ia rapidamente pedir o reembolso antes do limite de 2h jogadas — porque não sou, de todo, uma jogadora com as melhores competências de todo o sempre e perco rapidamente a paciência com jogos demasiado difíceis. No entanto, houve qualquer coisa a mais neste jogo que me agarrou e me fez continuar a jogá-lo e testar-me a vários níveis.
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Podemos dizer que Hollow Knight se insere em três géneros, no geral:
- Metroidvania, o que significa basicamente que é um daqueles jogos que nos fazem andar para trás e para a frente no mapa para aceder a locais e mecânicas que previamente nos estavam interditos.
- Soulslike: os inimigos, depois de mortos, voltam sempre a aparecer no mapa após recuperarmos vida (que, neste jogo, é sentarmo-nos num banco); os bosses são extremamente difíceis de combater; e quando morremos, perdemos todo o dinheiro que tínhamos e somos forçados a voltar ao local onde morremos para o recuperar. Os jogos soulslike costumam ter tanto dificuldade como punição, por isso não são para qualquer pessoa (mas também conseguem ser muito recompensantes).
- Plataformas, que todos sabemos o que são, certo? Pois, mas talvez muitas pessoas tenham um desconhecimento enorme deste género como eu tinha. Só joguei e vi pessoas jogarem jogos casuais de plataformas, nunca me passou pela cabeça que este género pudesse ser tão difícil como se tornou neste jogo. Vejam só este exemplo de algo que é opcional no jogo, mas o pior cenário de plataformas que pode existir (e já agora, apreciem a música... a sério, se não tiverem vontade de chorar não são humanos).
Por ser um jogo de plataforma e pela sua componente soulslike, Hollow Knight é um jogo bastante difícil e é por esse motivo que não é para qualquer pessoa. Eu, como já referi, achei sinceramente que não ia ser capaz de o jogar, mas a verdade é que cheguei ao fim — com 102% completos, até —, e sinto-me muito orgulhosa por isso. Este jogo testou-me MUITO, em vários níveis diferentes, e fez-me perceber que também eu sou perfeitamente capaz — mesmo que demore anos a chegar lá. E a sensação de conseguirmos algo depois de tanto lutarmos por isso é indescritível.
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Tirando isso, no entanto, é um jogo muito bonito, meio melancólico e por vezes até um pouco spooky — não por assustar, mas pela ambiência de alguns cenários e inimigos juntamente com a banda sonora (ou ausência dela, em alguns casos) e o trabalho sonoro no geral. Segundo percebi, todos os assets visuais deste jogo foram desenhados à mão, o que é incrível nos dias de hoje (mesmo que o jogo já tenha 8 anos). É impossível explicar a imersão que este jogo nos faz sentir sem o experienciarmos; no entanto, tendo o seu mapa várias áreas bastante diferentes umas das outras, é a arte e a banda sonora que as distinguem e caracterizam de uma forma que nos faz automaticamente reconhecer em que zona estamos. Há áreas mais bonitas e relaxantes, outras mázinhas e irritantes, outras belas pela sua vibe nostálgica... Há de tudo e é tudo incrivelmente belo — bom, quase tudo, não se fala de Deepnest, a pior área neste jogo de onde todos só querem sair.
Alguns exemplos do que falo, com ligações para vídeos para ilustrar (mas, se considerarem jogar, não vejam muito para não estragar):
- Greenpath: Uma das minhas áreas preferidas do jogo, com acesso logo numa fase inicial do jogo. É uma das áreas onde acabamos por sentir que podemos relaxar um pouco, pela sua ambiência.
- Kingdom's Edge: Uma das áreas com a música mais bonita no jogo. É uma música muito triste e emotiva, por favor ouçam.
- City of Tears: Também uma das áreas mais bonitas do jogo.
- Deepnest: Não é a pior por ser má, é porque foi feita para ser desagradável, mesmo.
Outra componente que gosto muito no jogo — e que também existe no segundo jogo, Hollow Knight: Silksong, que saiu em Setembro deste ano — é o facto de nos dar a possibilidade de irmos salvando bichinhos muito fofos para os devolvermos ao seu pai. No caso deste primeiro jogo, são as grubs que são muito, muito fofas e fazem uns barulhinhos muito queridos quando são salvas por nós (e até lá, ouvimo-las chorar porque estão presas). Podem ver algumas aqui.
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Por fim, vou apenas listar o meu top 3 de melhores e piores bosses, mais para mim que outra coisa, para poder mais tarde relembrar.
Melhores bosses:
- Mantis Lords, por serem tão difíceis mas tão estratégicos.
- Troupe Master Grimm, que é de um dos DLCs, mas foi uma delícia poder ter uma luta que parecia uma dança coreografada. Este inimigo tem uma versão mais difícil, mas eu não a fiz.
- The Collector, simplesmente porque foi uma luta incrivelmente divertida para mim.
Menção honrosa para o Soul Tyrant, muito difícil mas também muito recompensante.
Piores bosses:
- Watcher Knights, sendo que esta batalha ficou bem mais fácil depois de adquirir duas coisas no jogo; venci-os em 3 ou 4 tentativas. Mas, antes disso, passei um total de mais de 5 horas (não seguidas) a tentar vencê-los, sem sucesso. Odiei, a batalha pareceu muito injusta e nada equilibrada.
- Nosk, porque é um serzinho irritante (apesar de todo o caminho até ele ser de arrepiar a espinha, num bom e mau sentido).
- Broken Vessel, porque achei também irritante.
Quis ser o mais extensa possível nesta publicação, acho que este jogo merece tudo de bom que se possa dizer dele, mas ao mesmo tempo é impossível transmitir tudo aquilo que é e todo o efeito que provoca em nós, enquanto jogadores, sem simplesmente experienciá-lo em primeira mão. Do meu lado, só posso dizer que se tornou um dos melhores jogos que joguei na vida, apesar de por vezes ter sido uma experiência torturante. Sabemos que são bons quando, apesar disso, a recompensa e gratificação que oferecem são ainda maiores.
Ontem vi, por acaso, um vídeo-ensaio sobre o segundo jogo, no qual o rapaz dizia que esse jogo o fazia sentir algo que não sentiu muitas vezes em toda a sua vida: childlike wonder. Acho que é mesmo isso, porque os jogos são tão bonitos, tão imersivos, tão... tudo, porque não existe qualquer palavra que alguma vez consiga defini-los tão bem. A última vez que fiquei completamente agarrada a um jogo foi com o Stardew Valley, há já alguns anos. Há muito tempo que um jogo não me fazia sentir toda esta vontade de o jogar a cada minuto do meu tempo livre.
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Hollow Knight tocou-me de uma forma que eu não esperava que tocasse, e é possível que se torne num dos meus jogos preferidos de sempre, junto com o Stardew Valley e Skyrim. Dito isto — e sei que, depois de toda esta publicação, é irónico dizer isto —, não creio que vá jogar o Silksong, embora nunca diga nunca. Este segundo jogo parece ainda mais difícil do que o primeiro, e o primeiro já foi suficientemente difícil para mim. Agradeço de coração a experiência que me deu, agradeço de coração ter-me agarrado tanto e ter-me demovido de o devolver com reembolso. Mas, no fim do dia, este continua a não ser um jogo que é tipicamente a minha preferência pessoal (pela dificuldade apenas). E não sei se consigo passar por uma experiência de dificuldade ainda maior.
Sei que esta publicação provavelmente não vai ter muito interesse, mas se alguém desse lado jogar regularmente e estiver interessado num jogo desafiante, bonito, imersivo, cheio de história (ainda que obscura), e incrivelmente profundo, este é um excelente candidato. Eu já o terminei, mas ainda me sinto muito envolvida e ainda não segui em frente ❤️
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