Hamilton é uma peça de teatro musical da Broadway que nos conta a história de Alexander Hamilton, o primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos.
É uma peça absolutamente brilhante e, apesar de remontar ao passado americano, as suas músicas são bastante modernas, contando com estilos como hip-hop, jazz e R&B.
Tudo nesta peça está absolutamente incrível: para além das músicas, também o guarda-roupa, os atores e as suas vozes magníficas, a narrativa. E acho fantástico que não tenham alterado o cenário uma única vez.
É a história de uma vida inteira, contada de forma muito atual, que vem provar uma vez mais que Lin-Manuel Miranda é um génio musical.
Adorei também ver atores que conhecia e não fazia ideia que aqui estavam: Jonathan Groff (mas claro, como não), Christopher Jackson, que reconheci da série And Just Like That..., e Daveed Diggs, que também reconheci da série Black-ish (apesar de só ter visto episódios soltos na televisão).
O único ponto menos positivo que tenho a referir é a duração - acho uma peça um pouco longa, ainda assim, dada a narrativa, não consigo achar injustificado. Mas como são músicas atrás de músicas, pode tornar-se um pouco mais cansativo.
Em todo o caso, é uma produção de enorme excelência, como não poderia deixar de ser.
The Pitt é uma série médica, passada nas urgências de um hospital americano e posso desde já adiantar que é uma série incrível.
Neste momento, a primeira temporada já terminou e acho que não tenho um único ponto negativo a referir. Cada episódio é uma hora de um turno, o que significa que a temporada é um único dia de trabalho. Já vi comentado, pela internet, que é uma das séries médicas mais realistas, incluindo pelo Doctor Mike, youtuber médico americano.
A série acompanha as histórias por detrás dos pacientes e dos médicos e enfermeiros, mas fá-lo de uma forma bastante natural e fluida, nunca saindo do hospital para as contar. Afinal, se estamos a ver um turno, não faz sentido ver nada além do que lá se passa. Acho que isto é algo em que a série se destaca brilhantemente. Para além disso, consegue mostrar-nos a carga emocional que o protagonista tem sentido e as memórias e efeitos que uma situação mais traumática ainda lhe traz.
Há outros aspetos: o facto de não ter qualquer música ou banda sonora e o facto de ser uma série muito gráfica. Não é só aparentemente realista em termos científicos, mas também, claramente, em termos técnicos.
É muito dura de assistir porque, como é natural do local em que ocorre, existem situações muito tristes e exasperantes. Outras enervantes, já que, sendo um reflexo da realidade, também somos confrontados com negacionistas, por exemplo. Para além disso, ocorrendo nos Estados Unidos, também nos mostra situações trágicas muito próprias do país. Mas no meio de tudo isto, também nos consegue mostrar alguns momentos mais leves.
Uma curiosidade da qual não me apercebi de imediato é que o ator principal, Noah Wyle, foi um dos protagonistas da antiga série ER que, apesar de nunca ter visto, é uma das séries médicas mais famosas na história da televisão, tendo contracenado com George Clooney.
Acho esta série uma forte concorrente a um top de melhores séries deste ano e, apesar do grafismo, deu-me imensa vontade de ainda vir a rever a temporada enquanto esperamos pela segunda. Não posso dizer que isto seja algo que aconteça frequentemente - na verdade, nunca aconteceu de todo.
A Cicatriz apresenta-nos um casal de jovens, numa relação evidentemente feliz e apaixonada, a passar férias no Rio de Janeiro. Depois de dias tão bem passados e preenchidos de encanto brasileiro, decidem aproveitar uma das últimas noites para jantar fora. Mas, quando chega a hora de regressar ao hotel, decidem fazer o caminho a pé e não se recordam se devem virar à direita ou à esquerda - é essa decisão, no entanto, que vai mudar para sempre a vida de ambos e de forma profunda.
«Lembro-me de que olhava para ele muitas vezes, quando, ao fim de semana, acordava mais cedo, e que pensava que não o merecia, porque ele era Luz e eu sempre vivi nas Trevas, entre aquilo que os outros viam em mim e elogiavam e tudo o que eu escondia e acreditava que, mais cedo ou mais tarde, seria revelado.»
Devorei este livro em dois dias, por ser pequeno e porque cerca de metade vai trilhando o caminho para chegarmos ao derradeiro dia e sabermos o que aconteceu, o que aguça logo a curiosidade.
Tenho lido algumas críticas sobre a parte inicial se demorar demasiado até chegar ao "dia D", divagando desnecessariamente sobre aspetos irrelevantes. Tendo a concordar, mas também compreendo porque a autora assim o fez e, honestamente, gostei tanto da escrita dela que não me importei de mergulhar um pouco mais em detalhes que não interessavam assim tanto.
«Nem sempre fui assim, tão pessimista e refém do destino inalterável e dramático, mas de há uns anos para cá, desde que aquilo me aconteceu, carrego em mim esse peso de que a desgraça escolhe a dedo quem está mais frágil e dá conta do pouco que sobrevivemos desde essa última tragédia.»
É um livro gráfico e duro, ainda que o acontecimento seja algo previsível, ou pelos menos os seus contornos de um modo geral.
Gostei bastante de todas as descrições do Rio de Janeiro e do facto de a cidade ser praticamente uma personagem do livro em si mesma. Ainda assim, há alguns pontos que me deixaram com opiniões ambíguas ou alguma amargura:
1. Porquê o Brasil? Sim, sim, sabemos que a segurança lá está por um fio, mas isto podia ter acontecido em praticamente qualquer parte do mundo. Focar na pobreza, nas favelas... Ok, se calhar alguém pode argumentar que dá a conhecer os dois lados do país, mas eu também acho que talvez esteja a estereotipar.
2. A autora explica que esta é a história que aconteceu na sua cabeça quando viajou para o Rio de Janeiro. Talvez isto responda à minha pergunta anterior. Também sofro de alguma ansiedade e por vezes também tenho pensamentos intrusivos do género. Não sei se me sinto confortável com a ideia de os materializar, prefiro esquecê-los. Dar vida a uma imaginação horrível onde me incluo parece-me mórbido.
3. Não sei o que achar da forma como a protagonista lidou com o seu trauma, mas também não me sinto confortável em criticar - afinal, que raio sei eu? Vou ser eu a dizer a alguém que experienciou um acontecimento traumático que essa pessoa está errada? Não. Mas é como disse: opiniões ambíguas ou alguma amargura.
No fim de contas, adorei a escrita dela, gostei de ser embalada na história até chegar ao dia (mesmo que com detalhes que nada interessam) e é sem dúvida um livro profundamente marcante e impactante. Gostei também de nos ter respondido à pergunta "e se?", da forma como nos contou a história alternativa - o que aconteceu no universo paralelo onde seguiram a direção correta. Dou quatro estrelas por isto. Mas também me deixará com outro tipo de reflexões e questionamentos menos positivos.
Kya é uma jovem que vive num pantanal na Carolina do Norte, perto de Barkley Cove, isolada da civilização. Em criança, Kya foi sendo abandonada pelos seus familiares, um a um, até se ver completamente sozinha e sem mais ninguém em quem contar para sobreviver. Conhecida como a Miúda do Pantanal, Kya é desprezada pelos habitantes de Barkley Cove e vista como uma estranha selvagem; e, por isso, mais tarde acaba presa por suspeita de ter matado Chase Andrews, o menino querido de Barkley Cove, encontrado morto no pantanal.
«Eu nunca odiei ninguém. Eles é que me odiavam a mim.Eles é que se riam de mim, eles é que me abandonaram. Eles é que me importunaram e me atacaram.»
Adorei este livro, de coração. Aliás, tenho de começar por dizer, desde já, que Delia Owens conseguiu uma proeza incrível: fez-me adorar um livro marcado por escrita descritiva. Pensava não ser fã deste tipo de escrita, mas estava enganada; ainda há por aí palavras que me conquistem.
Poderá ter ajudado - quem quero enganar, claro que ajudou - o facto de ela ser cientista da vida selvagem, já que as descrições que faz do pantanal, da sua natureza e dos animais que a habitam são únicas. O pantanal acaba por ser, por si só, uma personagem do livro, e é fascinante. Tive muita vontade de visitar um sítio assim, e ainda tenho, apesar de me ter lembrado que, com a minha fobia a rãs e sapos, não sairia de lá mentalmente sã.
Pela primeira vez na vida, não me senti capaz de ler um livro em inglês. Comecei a ler esta versão, mas tinha tantas palavras que eu simplesmente não conhecia que achei melhor ler a tradução portuguesa, porque não estava a conseguir captar a magia da ambiência que Delia Owens queria passar. Vendo pelo lado positivo, foi aqui que me lembrei que a biblioteca existe e que eu devia voltar a ser visitante regular (e assim aconteceu).
Esta é, no fundo, a história de alguém abandonada por todos, que se conseguiu superar sozinha desde miúda, conseguindo até feitos profissionais incríveis, apesar de não ter sequer frequentado a escola. A vida no pantanal ensinou-lhe mais do que qualquer um poderia saber. É também uma personagem muito solitária e, em momentos, inocente, o que faz todo o sentido.
«Recordou a forma como o pai definia um homem: alguém que chora quando tem vontade, sente a poesia e a ópera com o coração e faz o que for necessário para defender uma mulher.»
Achei um livro muito completo: tem romance, crime e mistério, drama. Acho que é uma história devastadora quando pensamos mais a fundo na vida que Kya teve, mas tem tanto de bonita quanto de triste e este livro ganhou um lugar muito quentinho no meu coração. Gostei mesmo muito e, se ainda não leram, recomendo bastante.
O filme tem algumas escolhas distintas do livro, algumas que sinto que alteram até um pouco a essência e carácter de Kya - aqui, ela é menos tímida, por vezes mais efusiva. Prefiro a Kya do livro, faz-me mais sentido.
Ainda assim, foi ótimo poder dar uma "cara" ao pantanal e acho que a força do filme está precisamente na Natureza que mostra. De resto, faz um bom trabalho a adaptar a história, mas nada que o destaque fortemente como obra cinematográfica. Gostei e recomendo. Ah, e adoro a música que a Taylor Swift compôs para o filme - aliás, isto foi o que me levou ao livro, portanto só tenho de lhe agradecer. E agora que conheci a história, acho que a música está ainda melhor.
Em Challengers, Tashi era um prodígio do ténis antes de se ter tornado treinadora de Art, aquele que é agora seu marido e que se tornou um campeão famoso por todo o mundo. No entanto, Art está a atravessar uma fase difícil da sua carreira, acumulando derrotas atrás de derrotas, pelo que Tashi leva-o a participar num torneio "Challenger", que está ao nível mais baixo do ténis profissional. Neste torneio, Art tem de enfrentar Patrick, o seu antigo melhor amigo e ex-namorado de Tashi, o que faz regressar algumas velhas memórias do passado e reacende alguma tensão e hostilidade.
Este filme, em termos técnicos, é bastante bom. A banda sonora é maravilhosa, embora tenha achado que, em certos momentos, o trabalho sonoro tenha ficado aquém - a música ficava um pouco mais alta que as vozes. Teve também algumas escolhas criativas, sobretudo em termos dos planos utilizados e da sua composição, que resultaram bastante bem e houve um, particularmente no final, que ficou incrível.
Passei, no entanto, o filme praticamente inteiro a sentir imenso "cringe", sobretudo porque achei ambos os homens algo patéticos. Sei que é propositado e é suposto mas, juntando isto à personalidade e atitudes de Tashi, a verdade é que não consegui gostar de absolutamente nenhuma das personagens. Mais uma vez: sei que provavelmente isso é propositado, mas não posso negar que isso tenha tornado difícil envolver-me emocionalmente nas suas histórias ou sequer identificar-me com elas.
Dito isto, tenho de referir que o único momento em que me senti verdadeiramente investida na história e na rivalidade destes dois foi efetivamente no final, onde evidentemente o realizador (e o editor, crédito dado onde é merecido) conseguem criar um momento absolutamente épico em que, agora sim, estamos a torcer por alguém - seja lá quem for. E conseguir isto, apesar da falta de investimento emocional ao longo do filme, foi, para mim, uma excelente proeza.
Não se deixem enganar, a falta de envolvimento que senti com as personagens é apenas um pequeno detalhe na generalidade desta longa-metragem e por isso, sim, recomendo muito o filme. É bastante bom.
Uma mini-série que tem andado pelas bocas do mundo e ainda bem, porque toca em alguns dos assuntos mais importantes da atualidade.
Jamie é um jovem de 13 anos que acaba a ser preso por suspeita de ter assassinado uma colega da sua escola.
Tem 4 episódios, pelo que se vê bastante rápido. A série é um pouco diferente do que se espera, dado que se debruça mais sobre as causas e efeitos do que aconteceu do que, propriamente, no acontecimento em si. De forma resumida, e antes de começar a falar com spoilers - porque vou ter que o fazer -, quero apenas dizer que esta série traz à luz a forma como a Internet está a ter um papel (demasiado) importante, e não muito positivo, em moldar os princípios e visões das nossas crianças. Fala de assuntos que, honestamente, nem eu própria sabia, mesmo que ligados a um nome que todos conhecemos, também não pelas melhores razões (pessoa a quem não quero dar palco, mas que existe no nosso mundo e cujo primeiro nome rima com shoe e último rima com fate). E acima de tudo, mostra porque é que ainda continuamos a precisar de movimentos como o feminismo, porque é que ainda é péssimo existir enquanto mulher no mundo - mais triste ainda, existir enquanto rapariga tão jovem.
Para terminar, até apenas em termos técnicos esta série vale imenso a pena, sendo todos os episódios filmados num plano contínuo. Com mais ou menos de 1h em cada episódio, este é um feito absolutamente incrível.
A partir de agora, irei falar com spoilers porque sinto necessidade de debater vários pontos da série que só quem já viu pode conhecer. Se ainda não viram, aconselho a não continuar.
No fundo, sinto que esta série se divide em 2 partes: o primeiro episódio incide no crime em si, e os restantes nos fatores que moldaram Jamie e a sua visão do mundo - a escola, a Internet e a sua personalidade, e a sua família que, embora aqui não tenha influência direta, talvez a sua passividade tenha tido. Ainda assim, incomodou-me que esta série tenha feito aquilo que uma das suas próprias personagens criticou: dar palco ao agressor, mas esquecer a vítima. Talvez tenha sido propositado?
O terceiro episódio é, sem dúvida, o melhor da série e, apesar de nada nele me chocar ou surpreender, não sabia que as coisas estavam assim tão mal, a ponto de miúdos estarem tão envolvidos em comunidades tão problemáticas e promotoras de ódio e violência às mulheres. Sabemos que não é ficção e esta série tornou-se ainda mais pertinente depois da notícia que saiu da jovem que foi violada pelos três influencers...
A série não me chocou, mas afetou-me bastante, especialmente depois desta notícia sair. Ler coisas como "grupos de WhatsApp criados por crianças entre os 10 e 13 anos" e perceber que não estamos a criar melhores gerações, que não estamos a fazer por melhorar o futuro da sociedade, que certas coisas estão, na verdade, ainda piores, tem-me feito sentir, por vezes, uma ansiedade tremenda.
Da mesma forma, ver o miúdo da série expressar chavões que não nos são desconhecidos e perceber que nada é ficcional - está a ser complicado conviver com a realização de que não só continua tudo a mesma merda, como na verdade, parece estar pior ainda.
A este propósito, embora apenas parcialmente relacionado, deixo este vídeo muito esclarecedor e factual que reúne todos os números respeitantes à violência doméstica e violência sexual em Portugal nos últimos anos. Recomendo também o mais recente episódio do podcast [IN]Pertinente, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que se debruça sobre os efeitos da utilização do telemóvel e das redes sociais no nosso cérebro, mas incluindo também as consequências especificamente em crianças - onde até esta série acaba a ser mencionada.
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📖 A ler:
📺 A ver:
IT: Welcome to Derry, Temporada 1 Alien: Earth, Temporada 1 Taskmaster (UK), Temporada 19 Pluribus, Temporada 1 Stranger Things, Temporada 5 Alice in Borderland, Temporada 3
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