Filmes | The Substance
Sinto que quanto mais tempo passa, menos quero escrever sobre este filme porque só o quero esquecer.

Elisabeth Sparkle alcançou a fama com o seu programa de fitness na televisão (estilo anos 80), mas vê-se agora a ser despedida por nada mais, nada menos do que ser uma mulher a envelhecer. Os produtores querem uma carinha laroca e "carne fresca" para continuar a atrair audiências - e uma mulher despida de juventude já não serve. Desesperada, Elisabeth recorre ao mercado negro para experimentar uma substância que cria uma versão mais jovem e melhorada de si mesma. Sendo que as regras são claras quanto às duas versões terem de cuidar da outra e respeitar os limites temporais enquanto é a sua altura de "poder existir", esta dinâmica começa a dar asneira quando as duas se afastam cada vez mais uma da outra e deixam de se ver como duas partes da mesma pessoa.
The Substance é uma espécie de filme de terror corporal, bastante gráfico e com bastante gore nos detalhes corporais. Não é um filme para qualquer pessoa, de todo, muito menos para espectadores mais sensíveis. É bastante nojento e, embora tenha tido menos dificuldade a ver do que esperava, agora que passou algum tempo, como disse, só quero poder esquecê-lo.
O filme toca obviamente num tema central bastante importante, nomeadamente, os padrões de beleza da sociedade em relação às mulheres. Não é apenas o facto de embarcarmos numa procura eterna pela perfeição, acabando em algumas pessoas por surtir o efeito contrário. Eu acho que o filme nem é tanto sobre uma crítica ao uso excessivo de cirurgias plásticas - embora também seja um ponto em que toque. Para mim é bem mais sobre a pressão que é colocada nas mulheres o tempo todo para serem bonitas - e eventualmente, no efeito que isso tem sobre elas. Não nos é dada a mesma permissão para envelhecer que é dada aos homens. Inclusive, acho que uma das coisas que o filme faz melhor no início é mostrar a disparidade de expectativas para um homem e uma mulher na mesma faixa etária - temos um produtor da mesma idade de Elisabeth Sparkle, envelhecido, a falar-lhe de como já não corresponde ao que o programa precisa, enquanto come de forma asquerosa. O filme quis claramente retratá-lo como um "porco", um porco a despedir uma mulher (lindíssima, por si só) por não ser uma rapariga jovem e bonita. Mas aquele "porco", bem, ele pode tudo.
Esta ideia irónica do homem poder quase comandar a beleza de uma mulher, sem ser afetado pelos mesmos problemas, também surge no final, com alguns amigos do produtor a admirarem a versão mais jovem (e tão perfeita!) de Elisabeth - eles, os "velhos"...
Este filme tem pano para mangas. E chega a ser triste a forma como acredito que 99,9% das mulheres se conseguem identificar com um momento que seja desta longa metragem. E a parte mais triste é que no fim de contas este filme mostra uma mulher que, numa busca constante para corresponder a expectativas que, no fundo, vêm de homens, acaba por se destruir cada vez mais a si mesma, por dentro e por fora, que até na sua versão final de "monstro grotesco" tenta de tudo para ser bonita e para gostarem dela...
Gostava ainda de referir que não me passa despercebido o pormenor de ser uma mulher tão bonita quanto Demi Moore a interpretar Elisabeth (a "original", diga-se). Elisabeth Sparkle podia ser uma pessoa qualquer, mas é uma mulher de beleza excecional. Portanto, torna-se ainda mais gritante quando percebemos que nem uma mulher tão bonita consegue, bem... sentir-se bonita e aceitar-se como é.
Por último, dizer apenas que o filme tem um excelente trabalho visual mas, acima de tudo, um trabalho de som fantástico. Já ouvi alguém dizer isto, e concordo: para mim o mais nojento acaba por nem ser os elementos visuais, mas o som. Está tão claro, tão alto, tão pormenorizado que consegue um efeito espetacular.
E é isto... Mais do que um filme nojento, acho que é um filme profundamente triste e duro. E acho que há tanto, tanto para dizer sobre ele que nunca conseguirei fazer-lhe justiça.
Se se sentirem capazes, força, é um filme que recomendo. Senão, não se preocupem... Há filmes mais bonitos para ver, tipo, sei lá, o Encanto, ou documentários sobre gatinhos.



