Livros | Quando os Rios se Cruzam, Rita da Nova
Depois de As Coisas Que Faltam, a Rita da Nova voltou com o seu segundo livro a solo: Quando os Rios se Cruzam, e eu, claro, não podia deixar de o comprar e ler.

Este livro começa com Leonor, sentada numas escadas acompanhada de uma estranha a quem conta a história da sua época de Erasmus - experiência que viveu há 10 anos e que mudou a sua vida para sempre -, numa tentativa de adiar encontrar-se novamente com o seu passado.
Leonor passa o seu último semestre da Licenciatura em Turim, na Itália, pronta a descobrir-se a si mesma num sítio onde ninguém a conhece e sem o controlo da sua mãe. Leo descobre facetas em si que desconhecia, para o bem e para o mal, e algumas deixarão marcas para o resto da sua vida.
Estava muito curiosa por ler esta história, sobretudo porque toca em algo em que penso muitas vezes: como seria se estivesse num sítio onde ninguém me conhece? Infelizmente, eu não tive a oportunidade de fazer Erasmus, nem nunca tive a experiência de estar sozinha noutro país à descoberta, mas é algo em que penso bastante e pergunto-me, muitas vezes, como teria sido caso tivesse acontecido.
Gostei mais deste livro do que do primeiro, mas acho que em muito se deveu também à personagem e à própria história, que contém um pouco mais de "ação" em relação ao seu primeiro livro. Porém, não consigo deixar de sentir que a Rita ainda está um pouco contida na sua escrita e nos seus livros - que podia arriscar mais, fazer escolhas mais ousadas. Acredito que ela ainda tem muito para nos mostrar.
Vou começar pelos pontos negativos, para acabarmos em bem. Este é um livro que acaba por se centrar na amizade feminina - na cumplicidade entre Leonor e a sua amiga Daniela, na importância de Daniela na sua vida e naquela experiência. Mas, para um livro que pretende focar-se nesta amizade, achei que o enredo não acompanhou totalmente esse objetivo. Sinto que foi a relação com o homem que foi o elemento mais aprofundado, ao invés da relação de companheirismo com a sua amiga. Com exceção da cena do parque, onde a cumplicidade entre as duas nasceu, não consegui acreditar na Leonor de cada vez que falava da importância da sua amiga. Sinto que me foi dito, mas não mostrado.
Para além disto, também senti que algumas das personagens e conexões com as mesmas podiam ter sido mais aprofundadas - sobretudo com o Luís, por exemplo, que acaba também por mostrar alguma cumplicidade com a Leonor no "final", mas não é tão vista ao longo do livro. Entendo que as relações humanas não sejam todas iguais e tenham todas graus variados de profundidade, mas tirando as duas personagens que mais afetaram a Leonor, senti que o restante eram só pessoas que estavam lá por acaso, e que podiam ser outras quaisquer. Não senti que houvesse um papel muito significativo de cada uma delas no conjunto de tudo.
Por último, achei o final um pouco apressado e, mais uma vez, sinto que me foi transmitido que, de alguma forma, contar aquela história foi catártico para Leonor, mas não o consegui sentir. Acho que o final poderia ter sido um pouco mais aprofundado - e nem digo muito, um ou dois parágrafos a mais talvez bastassem.
Para passarmos aos aspetos positivos, gostei da forma como a Rita conduziu a história como um todo. Acho que conseguiu colocar algum mistério no enredo, fez-me devorar o livro o mais rápido que consegui para perceber 1) porque é que Leonor estava com tanto medo de entrar num prédio e de se reencontrar com pessoas; 2) quem eram as pessoas (claro que isto é respondido muito cedo no livro); e 3) porque é que o fogo parecia ter um papel tão importante nesta história. Este último deixou-me especialmente curiosa, já que eu sabia que a Rita não ia ser uma Colleen Hoover da vida, por isso só queria chegar à parte em que percebia de que forma completamente normal e saudável é que ela iria incorporar este elemento na história.
Gostei também imenso de conhecer Turim através deste livro (embora não tenha sentido que a cidade era uma personagem, na sua totalidade). Sempre que existia uma menção a algum local, corria ao Google no telemóvel para procurar fotos de todos os sítios.
Achei que a adição dos familiares e das relações que Leo tem com os diferentes membros da sua família foi uma escolha muito boa para aprofundar as personagens e contextualizar mais da vida e do passado de Leonor, bem como a pessoa em que se tornou, antes e mesmo depois de Turim.
No geral, acho que o livro vale a pena, tem uma história e premissa interessantes e, como referi em cima, gosto ainda mais deste do que do primeiro. Estou muito curiosa por ver o que mais a Rita da Nova tem para nos oferecer!

Por aqui, quem já leu? O que acharam?




